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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Há 140 anos a primeira balsa ligava Cuiabá com Várzea Grande


Autor: *Wilson Pires de Andrade

Robson Silva / Secom VG


Constituía um sonho para os moradores situados as margens do Rio Cuiabá, que dessem início o quanto antes ao funcionamento de uma balsa, ligando a Capital Cuiabá, Várzea Grande e todos os municípios localizados à direita do rio, o que sem nenhuma dúvida seria fator de maior desenvolvimento para todos.

Dia 04 de junho de 1874, em festa, com a presença de parte da população cuiabana, com bandeirolas, foguetes, girândolas e roqueiras (antigo canhão de ferro, cujos projéteis eram pedras) e sob o acordes do instrumental da Banda de música do Arsenal de Guerra, a primeira “balsa” deu início a travessia, o que permitiu maiores volumes de transportes de mercadorias daquele entreposto comercial para a capital de todos os matogrossenses. E a balsa fez história.

O primeiro balseiro foi o livramentense descendente de bandeirante Luiz Monteiro de Aguiar, que adquiriu um casco de ferro em 1870, e sobre ele mandou construir a primeira balsa. Mais tarde transferiu os direitos adquiridos por Lei ao Estado, que passou a arrendá-la a diversos.

Em 1888, a balsa encontrava-se em mãos de Virgílio Carneiro Leão, com o porto situado na atual Rua Maria Metelo, nas proximidades da casa do senhor Licínio Monteiro da Silva. Com ele, por 18 anos permaneceu a barca pêndula, a fim de que melhorasse seus acessórios: cabos e bóias.

Ao final do século XIX, Joaquim Polido SEABRA adquiriu o arrendamento da balsa, passando mais tarde para a direção do senhor Francisco Cláudio.

Por muito tempo esteve como arrendatário da balsa, Sebastião Teodorico, que ficou até o final do século. Depois dessa administração, a balsa passou para o domínio de Antonio de Arruda Pinto, conhecido como Totó Bichinho, que a colocou sob a

direção de Delfino Monteiro de Aguiar, filho do primeiro proprietário. Já em 1918, achava-se nas mãos do arrendatário Francisco de Arruda Pinto, por cinco anos.

Ponto de encontro

Em 1924, sob administração direta de Benedito Leite de Figueiredo, o Didito, último arrendatário, subvencionado pelo Estado, que a remodelou, mudando o sistema de bóias para o de cabo movido a carretilha.

A moderníssima barca-pêndula veio com bancos para passageiros e havia um lugar aberto destinado às carroças e animais. Era um verdadeiro ponto de encontro entre amigos e conhecidos sob os olhos atentos do senhor Didito. As conversas eram mantidas em clima de camaradagem, respeito e alegria. O fundo da balsa (barca) era feito de tubos enormes. Na hora de aportar, devido ao lugar raso, as zingas (movimento de hélice) empurravam a balsa até o local ideal para o desembarque de passageiros.

Às 06:00 saía à primeira balsa de Várzea Grande a Cuiabá, às 18:00 era a última viagem. Nos sábados quando havia festa em Várzea Grande, os canoeiros se alegravam com a arrecadação extra, após a última viagem da “barca-pêndula”, só havia jeito de recorrer aos eficientes canoeiros.

Imprevisto

Um caso bem raro sucedeu em certa ocasião, quando a barca aproximava-se do porto do lado de Várzea Grande, pendendo de um lado e virando. Mas como o local era raso, não houve conseqüência negativa, a não ser o susto e depois muito riso.

Didito Figueiredo foi o último arrendatário da balsa, pois, quando estava à frente desse negócio, inaugurava-se a ponte Júlio Muller, em 20 de janeiro de 1942.

*Wilson Pires de Andrade  é jornalista em Mato Grosso.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Carta de Abraham Lincoln para o professor de seu filho




Francisco Ferraz

Publicado em: 21/05/2014

"Caro professor, ele terá de aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que para cada vilão há um herói, para cada egoísta há um líder dedicado.

Ensine-o, por favor, que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-o que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada.

Ensine-o a perder, mas também a saber gozar da vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso.

Faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo se sozinho contra todos.

Ensine-o a ser gentil com os gentis e duro com os duros, ensine-o a nunca entrar no comboio simplesmente porque os outros também entraram.

Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho.

Ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram.

Ensine-o a ignorar as multidões que reclamam sangue e a lutar só contra todos, se ele achar que tem razão.

Trate-o bem, mas não o mime, pois só o teste do fogo faz o verdadeiro aço. Deixe-o ter a coragem de ser impaciente e a paciência de ser corajoso.

Transmita-lhe uma fé sublime no Criador e fé também em si, pois só assim poderá ter fé nos homens.

Eu sei que estou a pedir muito, mas veja o que pode fazer, caro professor.“

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fernando Henrique Cardoso: "Educação significa aprender a perguntar e a pensar"


DEPOIMENTOS

O ex-presidente da República conta que descobriu o verdadeiro sentido da Educação quando entrou na Universidade de São Paulo

Para Fernando Henrique Cardoso, valorizar a Educação é dever dos governantes

Tive a Educação regular que todas as crianças e jovens de famílias de classe média tradicional (isto é, educadas) tiveram. Frequentei escolas primárias no Rio e em São Paulo, ambas privadas, e do mesmo modo, nas duas cidades fiz em escolas privadas o curso secundário.

O verdadeiro sentido da Educação se abriu para mim, entretanto, quando entrei na Universidade de São Paulo, em 1949. Naquela época alguns professores estrangeiros, sobretudo franceses, ainda davam as cartas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Também fiz curso de pós doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris.

Aprendi, então, que Educação significa, mais do que transferência de informações, aprender a perguntar e a pensar: método. Mais vale ler um bom livro, qualquer que seja a orientação do autor, que abra a cabeça, do que perder tempo com dogmatismos ou muitas informações de utilidade duvidosa.

Passei grande parte de minha vida útil dedicando-me ao magistério. Na USP e, mais tarde nas universidades do Chile, de Stanford, Berkeley, Cambridge e na Universidade de Paris. Depois que deixei a Presidência da República voltei às aulas na Universidade de Brown, nos Estados Unidos onde fui professor visitante até há dois anos.

Como presidente, dei ênfase à expansão do Ensino Fundamental e técnico. O Brasil precisa muito que todas as crianças estejam nas escolas, que permaneçam nelas por mais horas do que o habitual e que as escolas as preparem para a vida. A vida moderna requer conhecimentos básicos de matemática, informática, português e pelo menos de uma outra língua. Mas, sobretudo história (com sabor sociológico) e algo de filosofia, ou melhor, de reflexão sobre a vida e as pessoas. Para isso é fundamental dispor de professores bem treinados, motivados, bem pagos e capazes de despertar o entusiasmo do aluno. Requisitos fáceis de mencionar e difíceis de serem efetivados.

De qualquer modo, para quem teve as oportunidades que tive de me educar é impensável não dar valor à Educação. Quando nasci metade dos brasileiros não sabia ler nem escrever. Agora serão dez por cento da população. Mas mesmo assim, os cursos ainda são precários. Acho que é dever de quem teve a oportunidade de se educar, principalmente dos governantes, valorizar a educação e entendê-la no verdadeiro sentido a que me referi: como um contínuo processo de aprendizagem, formal e informal, no qual mais vale saber indagar e refletir do que ter respostas feitas, como se a cabeça de cada um fosse um arquivo.



Fernando Henrique Cardoso foi presidente do Brasil de 1995 a 2002. É sociólogo e autor de vários livros sobre mudança social e desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Atualmente ele preside o Instituto Fernando Henrique Cardoso, que preserva e dá acesso ao seu arquivo pessoal, além de promover o debate sobre democracia e desenvolvimento.

Daniela Biancardi: "Foi o teatro que me ofereceu uma educação criativa, ética e política"


Daniela trabalha com teatro e arte circense e por acreditar no poder educativo da arte, tem desenvolvido diversas atividades em comunidades carentes.

Em 2007, Daniela se tornou a primeira brasileira a excursionar com a ONG Palhaços sem Fronteiras, levando cultura para crianças da África do Sul e Lesoto.

Posso falar sobre como a Educação ainda me transforma por meio de dois caminhos: minha família e minhas escolas. Afinal, não paramos de aprender nunca, e portanto o verbo mudar, eu não colocaria no passado...

Tenho uma mãe extremamente participativa em tudo que faço. Neta de italianos, ela detinha um sítio como espaço de convívio e trabalho. Ela vivia cercada por muitos irmãos, primos, tios, aprendendo o sentido de compartilhar em casa, no trabalho pesado na roça desde cedo e como operária de uma fábrica mais a frente. Isso certamente foi um fator influente em minha educação. E com meu pai não seria diferente, filho de italiano operário e músico. Ainda assim, não romantizo esta fase de minha infância, pois sempre estive ciente dos momentos difíceis vividos pelos meus pais. A cultura machista estava arraigada em suas vidas, e tive que conviver com o alcoolismo de alguns tios e de papai. Mas sempre lembro que tive um pai e uma mãe muito criativos para avançar com sua subsistência.

Durante as décadas de 80 e 90, estudei em uma escola pública sem nenhum recurso artístico, cultural e científico para aprendizagem. Era um ambiente com mais de 30 crianças na sala de aula, móveis que eram resquícios da ditadura militar, paredes de cor bege, corredores frios, nenhuma imagem ou cor que celebrasse e localizasse a criança como ente fundamental e pulsante da comunidade escolar. Isto ainda me fere e tenho dificuldades de compreender porque a escola pública ainda sofre por falta de estrutura.

A escola pública, que deveria ser referência em nosso país, quase não sobrevive em alguns estados. Continua com esta estrutura que massacra uma geração de futuro e não nos enobrece, nos torna ainda mais ignorantes....

É sabido que temos ainda poucas escolas, que mais de 20 crianças numa sala só estrangula a rotina de um professor, que espaços frios impedem o convívio social pela ética e diálogo entre corpo docente e discente e não estimulam corpo nenhum ao criativo e pensante. Por que as escolas ainda não oferecem uma estrutura que no torne pulsantes e vivos para revolução de uma sociedade?

Fui entender outras práticas de aprendizagem que não a da cópia de lousa e professor gritando, nas escolas de Teatro. Foi o teatro que me ofereceu uma educação para um corpo criativo, ético, político e pedagógico. Ainda assim, não nego meus professores da infância, que mesmo numa estrutura quase indigna para o que deve ter uma escola, se desdobravam "em mil" para nos oferecer algo diverso. Todavia, sabemos que não se pode deixar tudo a cargo de um professor.

Hoje sou professora de uma escola de teatro, e ali nos deparamos com questões que dizem respeito ao convívio e formas de diálogo entre os aprendizes e orientadores. Acreditamos que uma escola se dá a partir desta relação, quando podemos refletir sobre a ampliação crítica a respeito do mundo por meio da arte.

Então, por que a arte não é mais presente nas escolas públicas? Por que o esporte não se torna rotina diária? Por que uma criança não aprende a tocar um instrumento desde cedo? Por que os pais não participam mais das atividades escolares? Por que o Brasil sofre carência de boas escolas e por que em cada estado a realidade se dá de forma distinta? Por que não se pode estudar história ou ciências outras por um caminho poético e criativo, por práticas que estimulem o aprendiz a de fato compreender estas ciências partindo de sua própria casa e escola. E que estas práticas gerem debates entre aprendizes e sua escola sobre o que vivemos no Brasil e mundo. Por que não existe um movimento ou grupo de estudantes em Brasília a questionar os governantes sobre seu futuro?

Espero que o espaço público "Escola" retome seu sentido no mundo e que, no Brasil, todo cidadão brigue por uma escola que não anule o ente e sim, que amplie sua dimensão crítica sobre a vida. Nós temos meios e pessoas que desejam esta mudança. Basta procurar por elas.

Daniela Biancardi trabalha com teatro e arte circense há anos. Formou-se na Escola Superior de Artes Célia Helena (SP), cursou a École Internationale duThéâtre Jacques Lecoq na França e a Kiklos Scuola na Itália. Atua como atriz, orientadora de teatro e coordenadora de projetos culturais e artísticos. Por seu engajamento social, desenvolvendo trabalhos em regiões carentes de São Paulo e no continente africano, recebeu o Prêmio Cláudia em 2011 na categoria Cultura.

terça-feira, 15 de maio de 2012

DEPOIMENTO: Domenico de Masi: "A curiosidade intelectual é muito importante"


Domenico de Masi: "A curiosidade intelectual é muito importante"
O sociólogo fala sobre as transformações por que passou ao longo de toda uma vida dedicada à Educação

Domenico de Masi é apaixonado pela cultura grega
A Educação começa no momento em que se nasce. Não lembro exatamente como ela mudou a minha vida quando eu tinha um dia, um mês ou um ano, mas certamente mudou muito a minha vida. Foi com certeza a maior mudança que tive.

Eu lembro a mudança por que passei durante o Ensino Fundamental. Tive a sorte de ter alguns professores muito bons e muito atentos ao meu crescimento. Isso me deu um sentimento de segurança e também um senso de questionamento. Ou seja, em todas as coisas eu via problemas, e não dados. Isso me dava curiosidade e fazia com que o meu aprendizado fosse muito mais prazeroso. A curiosidade intelectual é muito importante. Diz [Gastón] Bachelard: "A fome de cada dia nos dai hoje". Hoje há muito alimento intelectual. Há muitos livros, muitos discos, muitos filmes.

E depois, no Ensino Médio, a grande transformação se deu em função da cultura grega. Sou muito apaixonado pela filosofia grega, pela literatura grega, pela tragédia grega. E essa paixão me provocou muitas mudanças, pois me fez entender que o importante não é ter muitas coisas, mas valorizar muito as coisas que se tem. Se as coisas têm sentido, elas passam a ser fundamentais. Não é preciso acumular, acumular, mas sim valorizar as coisas que temos.

A universidade me deu o senso de liberdade. Depois fiz especialização em Paris, onde tive como professores pessoas como Sartre, Camus e Tourenne. Tive a sorte de ter grandes mestres. E isso, naturalmente, abriu a minha mente.

Depois comecei a me interessar pela organização do trabalho. E isso me pôs em contato com a classe operária. Entendi que há uma diferença enorme entre quem comanda e quem deve obedecer. Entendi a importância da luta de classe. Entendi que não se consegue nada sem luta. Entendi o que é a manipulação e como a manipulação é quase pior do que o constrangimento.

É claro que também aprendi com os meus alunos, mas não muito. Não sou daqueles professores que dizem que se aprende muito com os alunos. Acredito que meus alunos aprenderam muito mais de mim do que eu deles. Mas eles me ensinaram a ser sempre verde, sempre incompleto, sempre experimental, como diz Gilberto Freyre.
Domenico de Masi é um sociólogo italiano. É autor de "Desenvolvimento sem Trabalho", "A Emoção e a Regra", "O Ócio Criativo" e "O Futuro do Trabalho". Atualmente é professor da Universidade La Sapienza de Roma.



domingo, 12 de fevereiro de 2012

DEPOIMENTOS- M auricio de Sousa: "Agradeço por ter recebido a Educação nas suas diversas formas"

O criador da Turma da Mônica conta que aprendeu as primeiras letras nas historinhas dos gibis

Mauricio de Sousa cresceu cercado por poetas, escritores, músicos e ilustradores Desde que nasci numa casa cheia de livros.
Desde que mamãe me ensinou as primeiras letras nas historinhas dos gibis.
Desde que encontrei professores conscientes do seu papel.
Desde que fui cercado por poetas, escritores, músicos e ilustradores.
Desde que me habituei a ler. E muito. De tudo.
Desde que pude viver do texto e da arte.
Agradeço por ter recebido a Educação nas suas diversas formas.
E agradeço mais, ainda, pela oportunidade de retribuir aos que chegam.
Mauricio de Sousa é um dos mais famosos cartunistas do Brasil, criador da "Turma da Mônica" e membro da Academia Paulista de Letras. Sua primeira escola foi o externato São Franciso, ao lado da Faculdade, no centro de São Paulo. Trabalhou também como repórter policial no jornal Folha da Manhã, mas largou o jornalismo para se dedicar à sua verdadeira paixão: a arte.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Depoimento - Marilena Chauí: "Foi ainda na escola que percebi o papel formador decisivo da Filosofia"

"A filósofa e professora relata a importância crucial do ensino público em sua vida

"Minha geração teve uma formação excepcional, em escola pública, laica, republicana" Perguntar qual a importância da educação para mim é como perguntar qual o significado da minha própria vida. Ela é constitutiva da minha própria existência. Venho de uma família de jornalistas e professores, então a presença da formação educacional vem desde meu primeiro mês de vida!

Mas gostaria de realçar algumas questões que me marcaram em particular: em primeiro lugar, a qualidade da escola e dos professores que eu tive ao longo da vida. Foram excepcionais. Minha geração teve uma formação excepcional, em escola pública, laica, republicana. Tive o privilégio de estudar em escolas públicas que tinham professores muito bem formados, reconhecidos e bem remunerados. Havia infra-estrutura para o ensino e até para uma pequena pesquisa.
Um segundo aspecto é que não consigo imaginar minha trajetória intelectual sem a contribuição do ensino que tive especificamente na área de Humanidades. Na época, todos os alunos tinham contato com o que havia de mais consistente na cultura ocidental. Só de línguas estrangeiras, por exemplo, aprendi Inglês, Francês, Espanhol, Latim e Grego. E além das disciplinas convencionais - como Português, História, Geografia e Literatura - havia a Filosofia.

Tive um professor de Filosofia incrível: [João] Eduardo [Rodrigues] Villalobos. Foram suas aulas que me levaram a optar por essa área de estudo. Minha intenção inicial era me tornar professora do Colegial. Isso porque, já na época, percebi o papel formador decisivo que a Filosofia tinha na escola, para todos os estudantes. De criar espírito crítico, questionador, independente da opção profissional futura.

Meu professor me fascinou ao mostrar que o pensamento é capaz de pensar a si próprio, e a linguagem é capaz de falar ela própria. Essa reflexão foi minha descoberta filosófica fundamental. Pensar é alcançar algo até então desconhecido, tendo a certeza de que não há saber pronto e acabado. Considero uma vitória o retorno da Filosofia ao Ensino Médio.

Por último, acho importante dizer que na minha época, tínhamos um profundo desprezo pela escola privada. Era considerada de baixa qualidade, apenas uma rede comercial. Existia para os alunos ricos, preguiçosos, mal informados. Sua função era oferecer diplomas para quem não queria estudar. Quando um colega ia para a escola privada, dizíamos: "Ih! Ele vai para o clube!".

Passei apenas três anos fora do sistema público de ensino, em um colégio religioso. Mas isso me marcou profundamente porque lá tive contato com um excesso de hierarquia e com uma clara desigualdade econômica e social entre as alunas. Muito diferente do que vivi na escola pública, aonde as diferenciações vinham da personalidade, do modo de se relacionar com os estudos, das amizades.

Cabe, entretanto, ressaltar que não havia na época uma política educacional que visasse a sociedade brasileira como um todo. A educação existia somente em determinados lugares. Portanto, o que descrevo aqui é uma experiência dentro da cidade de São Paulo. Quando não havia a marca da atual capital paulistana: a diferença entre centro e periferia. No meu tempo, os bairros mais afastados eram tão equipados educacionalmente quanto os mais centrais. As escolas supriam a demanda de toda a cidade.

Vivemos tempos de uma violenta desigualdade social e econômica, de polarização entre a carência absoluta - que caracteriza a periferia - e o privilégio absoluto - no caso, o centro. E isso começou a partir da Ditadura Militar, que criou uma cidade-arquipélago.

Também na Ditadura é criada a ideia de que escola pública é subversiva. A crise começou com a destruição das escolas vocacionais e, posteriormente, do resto das escolas públicas. Tudo isso com o apoio dos empresários da educação. Houve uma inversão de papéis, com a subordinação da educação ao dinheiro. Uma tragédia.
Marilena Chaui é professora-titular do Departamento de filosofia na USP, tendo se especializado em História da Filosofia Moderna e em Filosofia Política. Nascida em São Paulo, é filha do jornalista Nicolau Chauí e da professora Laura de Souza Chauí. Foi Secretária Municipal de Cultura de São Paulo, de 1989 a 1992. Além de extensa produção acadêmica, Marilena obteve êxito com livros voltados para a popularização da Filosofia. É uma das palestrantes do Ciclo Mutações: Elogio à Preguiça, que acontece até o dia 27 de outubro em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.




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Depoimento - Toquinho: "A escola incutiu em mim a necessidade da disciplina para a evolução do conhecimento"

Para o compositor, a escola é essencial para formação de um caráter firme e positivo

Toquinho estudou harmonia, violão clássico e orquestração Nasci numa família paulistana de classe média e morei até os 20 anos no bairro do Bom Retiro, convivendo com a simplicidade de pessoas humildes. A escola (Liceu Coração de Jesus) incutiu em mim a necessidade da disciplina para a evolução de meu conhecimento e para a formação de um caráter firme e positivo.

Enquanto isso em casa recebia de meus pais, Antonio e Diva, o amor adequado para que eu conseguisse, com independência, a base indispensável para minha afirmação como homem, como profissional e como pai dedicado e vigilante.
Toquinho, nome artístico de Antonio Pecci Filho, é cantor, compositor e violonista. Começou a tovcar violão aos 14 anos e, ao longo de sua carreira, compôs com Chico Buarque, Jorge Benjor, Vinicius de Moraes, entre outros grandes nomes da música brasileira.

domingo, 11 de setembro de 2011

DEPOIMENTOS_ Fernando Henrique Cardoso: "Educação significa aprender a perguntar e a pensar"

O ex-presidente da República conta que descobriu o verdadeiro sentido da Educação quando entrou na Universidade de São Paulo
08/09/2011 17:06

Para Fernando Henrique Cardoso, valorizar a Educação é dever dos governantes Tive a Educação regular que todas as crianças e jovens de famílias de classe média tradicional (isto é, educadas) tiveram. Frequentei escolas primárias no Rio e em São Paulo, ambas privadas, e do mesmo modo, nas duas cidades fiz em escolas privadas o curso secundário.

O verdadeiro sentido da Educação se abriu para mim, entretanto, quando entrei na Universidade de São Paulo, em 1949. Naquela época alguns professores estrangeiros, sobretudo franceses, ainda davam as cartas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Também fiz curso de pós doutorado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris.

Aprendi, então, que Educação significa, mais do que transferência de informações, aprender a perguntar e a pensar: método. Mais vale ler um bom livro, qualquer que seja a orientação do autor, que abra a cabeça, do que perder tempo com dogmatismos ou muitas informações de utilidade duvidosa.
Passei grande parte de minha vida útil dedicando-me ao magistério. Na USP e, mais tarde nas universidades do Chile, de Stanford, Berkeley, Cambridge e na Universidade de Paris. Depois que deixei a Presidência da República voltei às aulas na Universidade de Brown, nos Estados Unidos onde fui professor visitante até há dois anos.

Como presidente, dei ênfase à expansão do Ensino Fundamental e técnico. O Brasil precisa muito que todas as crianças estejam nas escolas, que permaneçam nelas por mais horas do que o habitual e que as escolas as preparem para a vida. A vida moderna requer conhecimentos básicos de matemática, informática, português e pelo menos de uma outra língua. Mas, sobretudo história (com sabor sociológico) e algo de filosofia, ou melhor, de reflexão sobre a vida e as pessoas. Para isso é fundamental dispor de professores bem treinados, motivados, bem pagos e capazes de despertar o entusiasmo do aluno. Requisitos fáceis de mencionar e difíceis de serem efetivados.

De qualquer modo, para quem teve as oportunidades que tive de me educar é impensável não dar valor à Educação. Quando nasci metade dos brasileiros não sabia ler nem escrever. Agora serão dez por cento da população. Mas mesmo assim, os cursos ainda são precários. Acho que é dever de quem teve a oportunidade de se educar, principalmente dos governantes, valorizar a educação e entendê-la no verdadeiro sentido a que me referi: como um contínuo processo de aprendizagem, formal e informal, no qual mais vale saber indagar e refletir do que ter respostas feitas, como se a cabeça de cada um fosse um arquivo.

Fernando Henrique Cardoso foi presidente do Brasil de 1995 a 2002. É sociólogo e autor de vários livros sobre mudança social e desenvolvimento no Brasil e na América Latina. Atualmente ele preside o Instituto Fernando Henrique Cardoso, que preserva e dá acesso ao seu arquivo pessoal, além de promover o debate sobre democracia e desenvolvimento.