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quarta-feira, 26 de março de 2014

Licínio Monteiro – história da VG/MT

Homem honrado, nobre vulto desta terra, digno de muitas homenagens e destaque, como a do Honório Laucídio Galvão
 
DOMINGOS SÁVIO BRUNO

Remexendo nas nossas lembranças, buscando informações do passado nas gavetas dos armários, sempre surgem novas idéias. E assim, neste mês de março, procurando sobre personagens ilustres da nossa cidade, eis que surgiu um nome: Licínio Monteiro da Silva. Quem foi esse homem? Papa banana ilustre? Isso sim. Mas também um dos mais nobres e ilustres políticos várzea-grandense. Também considerado um dos mais inteligentes deste estado. Homem honrado, nobre vulto desta terra, digno de muitas homenagens e destaque, como a do Honório Laucídio Galvão, no seu livro "Papa-bananas ilustres", em que destaca alguns personagens históricos da cidade vizinha de Nossa Senhora do Livramento, apesar de ser ex-prefeito da Várzea Grande/MT no período de 1953 à 1957.

Licínio era filho de médio pecuarista, sempre teve vida de muita luta, conforme descreve Joacil Ribeiro da Silva no seu Livro “Licínio Monteiro Glórias & Vitórias – Vida e Obra”. Que relata que desde pouca idade já trabalhava, e apesar de não ser poupado das lidas, apenas recebia ocupações mais suaves. Porém vem a comprovar que trabalho enobrece e dignifica... Licínio Monteiro da Silva, eis um belo exemplo de gente trabalhadora! E conforme afirma Ribeiro, não só a infância de Licínio, mas de todos os seus irmãos foram marcadas pelo trabalho e pouca brincadeira. Por falta de recursos humanos e de grupo escolar, teve inicialização escolar com sua mãe, dona Margarida, mas depois veio juntamente com os irmãos para estudar na Capital em 1912.

Licinio Monterio da Silva, de família tradicional, nascido em 17 de março de 1903, foi introduzido na política aos trinta anos de idade após retorno de viagem ao Rio de Janeiro, quando esteve em contato com o ex-governador do estado de Mato Groso e médico cuiabano, Dr. Mario Correa da Costa, que também era um conceituado profissional e político, e estabelecido naquela cidade.

Entusiasmado com convites feitos pelo ex-governador ao retornar a Cuiabá, com principal apoio da sua esposa dona Bebé, e de seu cunhado, tornou-se político, mas sem pretensões próprias, conforme relatos.

Em 1934 vitorioso na sua investida política, com a eleição de Mário Corrêa para governo do estado, afastou-se temporariamente para atuar nas suas tarefas cotidianas.

Licínio voltou a política no governo do interventor Ari Pires em 1937. Exercendo cargos de Membro fiscal da Santa Casa da Misericórdia. Já em 1941 deslanchando na vida pública e acumulando diversos cargos, na maioria sem remuneração, assim fazendo por mais de uma década, onde muitas vezes, segundo Ribeiro, deixando suas atividades particulares em segundo plano.

Em 1946, entrou de vez para a política, sempre incentivado pela esposa e pelo seu cunhado Aristides Pompeu de Campos, vencendo sua primeira eleição para Deputado Estadual por votação expressiva para a época, empossado em 20 de março de 1947, para o seu primeiro mandato, que ainda se reelegeria por mais quatro vezes, ou seja, 1951, 1953, sendo que em 53 renunciou e nessa época introduziu seu filho Sebastião Monteiro na vida pública. Licínio voltou a a vida pública em 03 de outubro de 1958. E foi reeleito no pleito seguinte... com a mesma sensibilidade de homem público, político, defensor de trabalhadores rurais e dos mais oprimidos pelo sistema.

Como Prefeito da nossa cidade de Várzea Grande, se elegeu em 26 de abril de 1953. Assumindo o comando logo em 27 de julho. E frente à prefeitura, sua primeira preocupação fora com o crescimento desordenado e mandou elaborar a reorganização da planta cadastral da cidade para ordenar o crescimento urbano.

Um dos seus maiores feitos na época foi a reversão do veto da construção do aeroporto, tendo ido até ao Rio de Janeiro e com toda sua diplomacia nata, convenceu o Ministro sobre a relevância daquela construção, e que não houve contra argumentos. Os engenheiros vieram e vistoriaram o local e aprovaram a obra convencidos e impressionados com a atuação do Prefeito Licínio Monteiro da Silva.
Licínio entregou o Paço do Couto Magalhães ao Engenheiro Júlio José de Campos em 1957.

Após ter completado 12 anos e 03 meses e 13 dias como legislador frente à Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso, Licínio Monteiro recebeu em sua casa, o importante convite, pessoalmente feito pelo então Governador Fernando Correa da Costa, para assumir o honroso cargo de Ministro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso. E para tanto foi necessário renunciar a mais de 03 anos que ainda restava do último mandato do legislativo estadual, em 8 janeiro de 1964. E atuou por quase 9 anos a serviço desse Tribunal, tendo presidido a casa nos anos de 1968 e 1972.

De acordo com informações extraídas da Publicação: “Cinqüenta Anos de História do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso – 1953 -2003, de Maria Adenir Peraro, Neila Maria Souza Barreto, Maria Aparecida Borges Barros Rocha, Licínio “Ocupou ainda outros cargos, como Presidente da Junta de Controle da FUSMAT e da Associação Rural (COMAPAN), tendo sido um dos fundadores do jornal O Social Democrata, ao lado do Senador Filinto Muller”

“Quando de seu afastamento do Tribunal de Contas, foi realizada uma sessão especial em sua homenagem. Nessa ocasião, o Conselheiro Presidente, Benjamin Duarte Monteiro, despediu-se do amigo que deixava as funções: A presidência deseja saudá-lo em nome do Tribunal e expressar seus sentimentos, a sua homenagem ao nobre companheiro que conviveu conosco tanto tempo e bons serviços prestou aqui no Tribunal. Vossa excelência, Conselheiro Licínio Monteiro, vai daqui se retirar e pode ficar certo que aqui deixa amigos. Quando tudo parecia triste, a sua risada alegrava e dela também vamos achar falta, porque V. Ex™, realmente, foi um bom amigo, um amigo de todos, em todas as horas.”

“Licínio Monteiro da Silva tem projeção definida e definitiva na história política mato-grossense em função de sua personalidade marcante e atuante por mais de quatro décadas nos diversos cargos públicos a que ascendeu com especialidade os eletivos, quando pode demonstrar o carisma em memoráveis urnas eleitorais.”

Licínio Monteiro após brilhante atuação e desempenho comprovado, requereu e teve sua aposentadoria homologada no dia do seu aniversário: 17 de março de 1973. Assim, continuou a contribuir participando da vida publica.

“O Conselheiro Licínio Monteiro da Silva faleceu em 1º de outubro de 1992, aos 89 anos de idade, na cidade de Cuiabá.”

O seu vasto curriculum e inteligência extraordinária, somada a sua gigantesca visão, serviram para fazer com que este nobre político fosse lembrado sempre pelos seus feitos e pela dignidade e pelos seus atos distintos de somar e aglutinar seguidores. Agindo sempre com diplomacia e grandiosidade de espírito.

A nossa cidade deveria tê-lo e sempre lembrá-lo, como modelo e exemplo a ser seguido. Várzea Grande tem gente de nome na história. E Licínio Monteiro da Silva faz parte da nossa história.

*DOMINGOS SÁVIO BRUNO é Engenheiro Florestal - saviobruno@terra.com.br

terça-feira, 25 de março de 2014

Mãe Bonifácia guiava os escravos pelo córrego, curava as dores com o coração, se imortalizou em estátua e virou lenda

Da Redação - Marianna Marimon

Seu coração era do tamanho de todas as mães que passaram por essa terra. Em seu coração, cabiam todos os exilados, desabrigados, pobres, maltrapilhos, os escravos. Em seu coração, havia a igualdade e bondade que deveria haver em todos os outros corações. Em seu coração, gritava alto o sentimento de busca pela liberdade, e de acreditar que existe sim, a possibilidade de ser feliz em um mundo injusto e cruel. Seu coração nunca se calou diante das atrocidades humanas. Seu coração lutou até quando pode, porque parar nunca foi uma opção. Alguns duvidam da sua existência enquanto outros cultivam o mito em torno da sua figura lendária para que a esperança seja sempre revigorada com a sua história ousada. O seu nome? Não sabemos. Só podemos chamá-la de Mãe Bonifácia.

Ela se tornou uma lenda em Cuiabá. Mas é recorrente muitos duvidarem da veracidade da sua história, afinal, no século 19, uma mulher negra e escrava, que auxiliava a fuga dos outros escravos, parece ser ficção. Porque deixariam Mãe Bonifácia livre, enquanto todos os outros estavam encarcerados? A resposta quem dá é o historiador Aníbal Alencastro, que rememorou a história da negra escrava no livro “Cuiabá: histórias, crônicas e lendas”.

A história de Mãe Bonifácia marcou mesmo já no fim da sua vida. Aníbal conta que a velha negra e escrava parou de ser incomodada devido a idade avançada e ao deixarem de usar seus serviços, foi morar na saída para a Estrada da Guia, em um barracão em frente ao 44º Batalhão e também era ali que nascia o córrego, que viria a ter o mesmo nome “Mãe Bonifácia”.

Curandeira, africana, com um vasto conhecimento sobre as plantas. Mas, porque a sua história marcou tanto? A estátua que hoje se situa no parque que leva o nome da mãe negra, retrata bem a conduta de Mãe Bonifácia diante dos fracos e oprimidos. Ela curava os negros, os salvava da perseguição e os guiava pelo rio até o quilombo situado na mata densa, onde hoje se localiza o parque. A dor que ela sentia no peito, só podia ser esvaziada se pudesse salvar aqueles que passavam pelo mesmo sofrimento que ela: a privação da liberdade.

Quando havia revolta em Cuiabá, e os negros fugiam, era atrás da Mãe Bonifácia que iam em busca de auxílio, já que ela os escondia. A negra orientava os fugitivos a andarem pelo córrego para que os cães dos capitães do mato, não pudessem farejá-los. Com isso, Mãe Bonifácia os guiava mata adentro, até o quilombo (que depois originou o nome do Bairro do Quilombo).

Com relação aos questionamentos sobre a sua existência, Aníbal é categórico “sim, ela viveu aqui, sua história é real”. O pesquisador levantou a trajetória de Mãe Bonifácia a partir de familiares remanescentes de escravos, que até a década de 1950, os avós destes que residem atualmente, viviam no Despraiado e contavam a história da negra velha que ajudava os escravos. Os refugiados também chegaram a ser retratados em livro de Estevão de Mendonça.

A Lei Áurea só foi aprovada em 1888, já no fim do século 19, quando Cuiabá era apenas a região do Centro, da Prainha, com o ouro a jorrar das águas, com a exploração do garimpo em pleno vapor e a exploração do trabalho escravo também. O ouro resplandecia mas, era preciso um olhar atento, para entrever que era também a ruína, a escuridão, a morte que espreitava os negros exauridos pelo trabalho árduo, pelas injustiças, surras, e ver seu corpo valer menos que a sua própria vida.

Os descendentes dos refugiados ainda estão na Estrada do Despraiado. Há um fundo de verdade sobre Mãe Bonifácia. Aníbal ressalta a importância de se manter viva a sua história e memória, “é a nossa raiz, os negros que fizeram Cuiabá em seus primórdios, com as minas de ouro e as mucamas nas casas dos patrões”.

O título de mãe é justamente por isto: por abraçar a desigualdade, romper com os padrões vigentes e abrigar em seu coração toda a dor humana. A estátua é a única representação que sobrou dos seus dias de vida. A mãe negra abraça o filho escravo, mas não é o sangue que a liga a todos os homens, é a sua alma, o seu coração que precisa estancar a dor e acalentar o choro, curar a diferença com amor, com solidariedade, com esperança. Sua história deve ser perpetuada como o único retrato que sobrou envolto em toda a lenda: a mão aberta, estendida, para salvar aqueles que eram expurgados da própria vida.

A mão estendida, o peito aberto e o amor de mãe foram o que a eternizou. E a sua lição é o que nos sobrou: amar independente de todas as adversidades e acreditar que através de nossas próprias mãos, um mundo melhor é possível, basta lutar.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Destemido, irreverente e sarcástico: Jejé de Oyá, o colunista social que apavorou Cuiabá por mais de 30 anos

Da Redação - Marianna Marimon

Sua presença é cheia de irreverência e a memória de sua figura evoca diferentes cores, que combinam com as suas vestimentas em estilo bizantino, mas destoam daquele lugar-comum cheio de referências do passado. Sua presença é ainda moderna, porque a autenticidade não se perde com o tempo, apenas se acentua e se concretiza. E foi assim com sua personalidade. Antes, poderia ser enquadrado como mais um enjeitado pela sociedade, porém, sua história foi diferente. Ao desafiar tudo e todos, romper com os padrões morais e revelar as facetas da conhecida cuiabania, teve que se desfazer da sua roupagem tradicional e inventar um personagem. Personagem este que se transfigura em ícone e se perpetua no imaginário popular da cidade. Nascido José Jacinto Siqueira de Arruda será sempre lembrado como o Jejé de Oyá.

O mais famoso colunista social de Cuiabá que desafiou a conhecida cuiabania, a tradicional elite da capital de Mato Grosso, com o poder econômico, social e político, Jejé de Oyá é temido. Conhece como poucos as nuances das principais famílias do Estado, que fizeram história nesta terra, em diferentes espaços e cenários. Jejé se aventurou a narrar este cotidiano social, as festas, os ‘bafos’, e declarou em entrevistas que se fosse escrever um livro, estaria morto no primeiro parágrafo.

Os mistérios e segredos de Jejé de Oyá serão levados para o túmulo. E porque evocar o seu personagem nesta sexta-feira, 28 de fevereiro? Por que o carnaval chegou. E não há figura melhor para representar a folia que toma conta das ruas cuiabanas, do que um dos personagens mais irreverentes oriundos da nossa Cuiabá.

Jejé de Oyá é homossexual assumido, negro e nasceu pobre, mas acabou sendo adotado por uma família cuiabana, já que sua mãe não tinha condições de cuidar dele por ser doente mental. Eu não o conheci, e sei que está nos momentos finais da sua vida, mas o imagino sarcástico, com a ironia correndo-lhe pela boca, e as sacadas e tiradas que deixavam os figurões de cabelo em pé. Jejé de Oya é homossexual, mas é cabra macho, afinal, mexer com tanta gente poderosa, como ele sempre fez, não é para qualquer um.

Podemos dizer que durante os 30 anos que fez colunismo social em Cuiabá, Jejé foi destemido e por isso se tornou temido.

Nascido em Rosário Oeste, veio para Cuiabá ainda criança, com apenas quatro anos de idade. E por ser adotado, pode estudar em uma escola particular e depois optou por fazer sapataria na Escola Técnica Federal, antiga Escola Industrial de Cuiabá. Mas, devido a ‘sujeira’ e cheiro incomodo da cola de sapateiro, Jejé optou por mudar para a alfaiataria, pois, era mais chique. Depois, devido a sua língua ferina ao delatar a postura incorreta de um professor para sua esposa, teve que terminar o curso de alfaiataria na Escola Profissional Salesiana, hoje Colégio São Gonçalo. E fez todo o tipo de vestimenta, inclusive para Dom Aquino Côrrea.

Porém, o sonho da vida de Jejé contrasta com a sua própria história, pois, destoa daquilo que representou. Seu sonho era ser padre. Vestir a batina e realizar missas. Este era seu desejo desde criança, e do mesmo jeito que sonhou, viu tudo se evaporar, quando fez o internato de cinco anos na Escola Salesiana. No último ano do curso cometeu um sacrilégio: colocou as vestimentas do padre e começou a rezar a missa em latim. Quase foi expulso do colégio.

A caracterização de seu personagem como colunista social foi acontecer lá no fim da década de 1960, quando começou a frequentar festas e conhecer as pessoas. Jejé gostava era de participar dos grandes bailes, como o Operário e no Clube Feminino, e neste último chegou a sofrer discriminação por ser negro. Não deixavam Jejé adentrar a pista de dança, só podia ficar se permanecesse sentado, como um eterno observador, sem poder fazer parte da folia.

Foi assim que decidiu escrever sobre tudo o que via e ouvia, e assim nasceu o colunista Dino Danuza, um pseudônimo para protegê-lo. Logo descobriram o disfarce e Jejé Oyá incorporou o seu personagem principal para sempre: ele próprio. De José para Jejé, se transformou em um arquivo vivo sobre tudo o que acontecia em Cuiabá.

E conheceu tudo e todos, através de um universo festivo e desejado. Jejé vivenciou tudo de perto, com seus olhos curiosos e transcreveu com ironia para revelar um mundo que era fechado em um pequeno círculo e o expandiu para toda a cidade.


O Diário de Cuiabá fez uma enquete por volta dos anos 90, e por maioria do povo cuiabano, Jejé Oyá foi eleito a personalidade que tem a cara da cidade.

Festivo, odiado por muitos, mas venerado por todos, Jejé de Oyá será sempre lembrado pelo colorido das roupas, pelo brilho no olhar, pela escrita ferina que destilava o veneno e a realidade daqueles que não queriam se enxergar neste espelho social.

Jejé é um símbolo porque é negro, é homossexual e ainda assim, desafiou uma capital patriarcal e não se recolheu. Jejé representa Cuiabá porque é desbocado, com o linguajar puxado, e é a cara do povo que só quer ser lembrado, como parte preponderante, de toda boa história, mito, ou lenda que circunda tantos mistérios nesse cerrado.

Destemido, levanta da cadeira sem se importar com preconceitos, e toma seu espaço definitivo na dança do baile da vida.

domingo, 23 de março de 2014

Do poeta ao diretor de teatro, Francisco Aquino Amorim é o Chico boêmio, subversivo e com fina ironia

Da Redação - Marianna Marimon

“É o morto mais vivo de Cuiabá”, profetiza o amigo, compadre e parceiro de primeira hora, o escritor Lorenzo Falcão. A memória permanece e continua a viver através das lembranças dos amigos e dos familiares, que sempre retomam em suas conversas, os causos e acasos desta figura emblemática. Muitos, talvez, não o conheçam e por isso, é preciso destrinchar com cuidado para desanuviar as ideias e encontrar o caminho, o mesmo que ele gostaria de trilhar. Com fina ironia, escreveu e dirigiu inúmeras peças em Cuiabá, tirou o riso da plateia na parceria com Liu Arruda e também cutucou políticos e dondocas, meteu um monte de gente nua em cima de um palco no Teatro da Universidade Federal de Mato Grosso no Grosso (UFMT) e rompeu com qualquer moralismo que pudesse existir. Dominou uma cidade patriarcal com sua fina ironia, sua boêmia desregrada, suas ideias subversivas e se tornou lenda. Francisco Aquino Amorim é o diretor de teatro, poeta e mais um louco desgarrado dos anais da história cuiabana, mas o chamemos como os amigos, apenas de Chico Amorim.

Ousado, despojado e desbocado. Iremos narrar algumas desventuras de Francisco Aquino Amorim (1956-2002), mais conhecido como o diretor maldito de teatro, que trabalhou com Liu Arruda e se engajou na recuperação da autoestima do cuiabano.

Todos os amigos o lembram da mesma maneira: um personagem alegre, com um vozeirão forte, com um chinelo velho nos pés e o jeito preguiçoso do cuiabano. Escrever sobre ele é difícil, porque eu o conheci, e fiz um poema em sua homenagem na ocasião de sua morte, a primeira vez que vi lágrimas nos olhos do meu pai. Até hoje essa trupe de artistas o guarda na memória, quando na década de 80 revolucionaram Cuiabá e a transformaram em um caldeirão borbulhante de ideias, que até hoje não alcança a mesma efervescência.

Com Lorenzo Falcão e sua companheira Fátima Sonoda, Carlão dos Bonecos e outros personagens, montaram o Grupo de Risco, de teatro experimental em Cuiabá. Foi aí que fizeram a adaptação de “O Capote” do escritor russo Gógol em 1988. Lorenzo conta que na peça, o elenco fazia a apresentação sem roupa nenhuma. Questionei se deu público e como foi a recepção, o escritor adiantou que foram mais de 10 apresentações, e que até avós, tias e mães foram prestigiar, pois, “O Capote” tinha muitas referências eruditas, música sacra, contemporânea, brega, minimalista. A estreia foi dedicada ao poeta visual Wlademir Dias-Pino.

E Chico tinha tiradas como ninguém e soltava: “tudo na vida evolui, menos a baixaria”, “Hollywood, Hollywood, comigo ninguém pude”, “eu me amo, mas não sou correspondido”. Chico Amorim era assim, de bar em bar, de mesa e mesa, disparava como uma metralhadora e podia dominar vários assuntos, afinal, não gostava apenas de arte e cultura, mas de novelas e também fofocas. Era um boêmio. Sair para a noite cuiabana era como uma obrigação, relembra Lorenzo.

Chico Amorim montou diversas peças com Liu Arruda, como a que tratava de política “Cidade Pedra Lascada” e também foi a sua ideia de casar Comadre Nhara com Juca e assim, nasceram mais dois personagens deste casório: Ramona e Gladstone.

“Porque sobre ele (Chico) não tem quase nada publicado. Foi um artista que vive na memória dos amigos ao invés dos anais acadêmicos e documentais. Não há registro, e desde o final dos anos 1970, que Chico trabalhava com o teatro, e junto com o Liu veio essa ideia de recuperar a autoestima do cuiabano, e começou a despontar porque todo mundo tinha vergonha, do jeito de falar, das roupas, do siriri e cururu, e ele usou isso, com irreverência”, contou Lorenzo.

Trabalharam com teatro de bonecos, fizeram a Máquina da Palavra no Clube Feminino, com música e literatura. Quando de sua morte em 2002, fizeram um caderno intitulado Chico, no Correio Várzea-Grandense, com uma foto enorme dele na capa. Um documentário também foi produzido pela TV Assembleia, mas não se encontra digitalizado. Lorenzo cobra a si próprio e dos amigos, que reúnam todo o material existente para que possam compilar tudo o que Chico Amorim representou para Cuiabá e transformar a sua história viva em memória fixa, em um livro.

Lembro de uma história engraçada que envolve o Chico. Quando criança, não entendia porque meu pai tinha que sair de casa todos os dias (no caso ele ia trabalhar), e eu me escondi no porta-malas do carro para descobrir aonde ele ia. Nesse dia, meu pai levava a minha mãe e deram uma carona pro Chico. E eu vez ou outra levantava a cabeça para olhar aonde íamos. Foi então que o Chico disse: “Eduardo, acho que tem uma cabeça loira aqui no seu porta-malas”. Meu pai e minha mãe deram risada, e creditaram isso a loucura ou bebedeira de Chico.

Mas, é na loucura que se encontra a sanidade ou então que se abraça todo o caos que existe no Universo, para viver em paz. Valéria Del Cueto, outra amiga de Chico, relembra uma imagem que deve estar na mente de todos os que o conheceram: deitado na rede, a contemplar o vazio, com os olhos fitos na imensidão, provavelmente a descobrir novos significados para a vida. E segurando os chinelos apenas com as pontes dos pés. E divagava, mas sempre, sorria.

Para encerrar, acho que é melhor deixar Chico falar por si só.

"Todas estas coisas
Que sobrevoam a minha mente
Quando em versos se desfazem
Me deixam meio frustrado
Porque perdem seu mistério
E me parecem diferentes
Todas estas coisas
Que minha mente
Sobrevoam
Me deixam meio frustrado
Quando em versos se desfazem
Porque perdem o mistério
Que as confere o pensar
E diferentes parecem

Quero algo mais profundo
Não quero saber de mim
Nem quero o saber do mundo
Quero algo mais profundo
Não quero saber do mundo
Quero um pedaço de pão
Quero algo mais profundo:
Me afundo"
Chico Amorim

"Eu queria ser muito rico
Para ter todas as drogas
Que conduzem meu pensamento
Palavras e obras

Atrás de mim
A vassoura do tempo
Varrendo os rastros
Do meu passo
Apagando todas as paixões
Com o estardalhaço absurdo
Do silêncio"
Chico Amorim

sábado, 22 de março de 2014

Poetisa, educadora e escritora, com a força emblemática de seu nome, Maria é de Arruda Muller

Da Redação - Marianna Marimon

 Parar tentar entendê-la é preciso colocar-se em seu lugar, delinear por seus anseios, pela sua vida repleta de ações sociais, de educação, de poesia. Talvez, seja este seu ponto principal: era uma poetisa, e os poetas são atormentados pela realidade do mundo que não podem mudar, e recorrem ao papel para enfim, terem a liberdade almejada. As ruelas de Cuiabá eram ainda mais apertadas, afinal, no século XIX, as mulheres ainda ocupavam um papel de coadjuvantes na história. Mas, seu nome é Maria, e como toda Maria, rompeu com o que não cabia em seu coração de poeta e abrigou o mundo em um abraço maior que a sua vida. Educadora, poetisa, escritora. A segunda mulher a ocupar uma cadeira na Academia Mato-grossense de Letras em 1930, não é só Maria é Maria de Arruda Müller (1898-2003).

Sua vida foi longa e fechou seus olhos pela última vez aos 104 anos. Sua história revela toda a coragem que havia em seu coração e em sua vontade em ser mais do que as meninas que esperam sentadas no baile. Sua vontade era levantar e dançar sozinha para conquistar o mundo com as palavras, com a educação, e fez de Cuiabá, uma cidade melhor, que pode vivenciar toda a bondade que havia em ensinar para transformação das mentes e da cultura.

Desde o início demonstrou a vocação para aquilo que faria para o resto de sua vida, afinal, aos cinco anos de idade já havia sido alfabetizada pela mãe. Sua missão alcançou o resultado, e em 2002, em seu último ano de vida, antes de dar o suspiro final, recebeu do Ministério da Educação, a Ordem Nacional do Mérito Educativo, grau de Grande Oficial, como a mais antiga educadora do Brasil.

Maria de Arruda Müller vivenciou três séculos de história, e pode ver o mundo se transformar aos seus olhos questionadores, que viviam além do que a margem pode mostrar. Filha do coronel João Pedro de Arruda e de Adelina Ponce de Arruda e neta de Generoso Ponce, começou a vida profissional como auxiliar de professora. Casou com Júlio Muller, em abril de 1919, o então interventor do Estado de Mato Grosso. Teve sete filhos e uma enorme prole de netos, bisnetos e tataranetos.

Em 1916, nascia em Cuiabá, a revista feminista “A Violeta”, tendo em Maria uma das fundadoras. A revista ocupou o 2º lugar na história do país em longevidade na lista dos periódicos escritos e dirigidos por mulheres. A escritora e pesquisadora da literatura, Yasmin Nadaf mergulhou no universo feminino de A Violeta e lançou o livro “Sob o signo de uma flor – Estudo de A Violeta, publicação do Grêmio Literário Júlia Lopes – 1916 a 1950” de 1993.

Estas pesquisas evidenciaram que as escritoras de Mato Grosso, seguiam os cânones do Movimento Literário Romântico no Brasil. A revista que foi uma empreitada de Maria, reúne um significativo e legítimo volume da escrita de autoria feminina do Estado e revelava parte acentuada deste universo do passado. Um olhar destas mulheres sobre elas mesmas e o contexto social na qual estão inseridas. É difícil imaginar como produziam tanto em uma época em que as mulheres não eram consideradas intelectualmente. Maria rompeu paradigmas.

“Não era apenas um periódico literário, mas também abordou a política, a história, o feminismo, a moda para a mulher, a culinária, a campanhas educativas, de higiene e de saúde, a registros da sociedade mato-grossense, etc. Seu ecletismo temático foi tamanho que levou a revista à ambigüidade: de um lado o individualismo, o amor subjetivo, o culto à beleza da natureza, as flores, o luar, o pôr-do-sol, e de outro, o desejo de solidariedade, o amor à pátria, as lutas pelo progresso da região de Mato Grosso e pela educação e profissionalização da mulher. Isolou-se do real com signos como o da flor, e ao mesmo tempo dele se aproximou quando falou do Progresso, da Civilização e da Modernidade, que englobam a cultura, a educação, o saneamento, a comunicação, o transporte, a saúde, a realidade circundante”, acrescenta Yasmin em sua pesquisa.

A vida literária da época também ganhou o coração destas mulheres que realizavam saraus literários como o sarau do Grêmio “A Violeta falada”, entre outros encontros literários e políticos. E nossa icônica Maria Muller assinava suas publicações com diversos pseudônimos como Mary, Chloé, Vampira, Consuelo, Sara, Lucrécia, Ofélia e Vespertina.

Foram 76 anos dentro das salas de aula: só saiu aos 96 por problemas de saúde, e também dedicou sua vida com o social e a política. Fundou o Abrigo Bom Jesus de Cuiabá (dos Velhos e das Crianças). Em 1942, revelando seu lado de ativista feminina, fundou a Sociedade de Proteção à Maternidade e Infância de Cuiabá. Presidiu a LBA – Legião Brasileira de Assistência durante a Segunda Guerra Mundial.

Como escritora, publicou em 1972 o livro 'Família Arruda'. Anos depois, em parceria com a amiga, musicista e poetisa Dunga Rodrigues, escreveu "Cuiabá ao longo de 100 anos". Outra obra de sucesso foi lançada em comemoração ao centenário de Maria de Arruda Müller. No ano de 1998 ela publicou "Sons Longínquos", uma coletânea de seus poemas. Sua atuação rendeu-lhe o seu nome no Colégio Liceu Cuiabano.

Um sopro de memória que nos leva para os caminhos de uma mulher que desbravou as letras para firmar seu espaço em uma sociedade machista e patriarcal. O seu olhar sobre o mundo tentou traduzir um pouco do seu universo particular em poemas, em textos, e abriu precedentes para que outras mulheres tivessem a coragem de buscar o seu lugar. Maria foi como muitas outras Marias, mas não deixou de ter a força significativa e emblemática que carrega o seu nome. Sua presença pode não ser mais física, mas suas palavras continuarão a embalar a esperança que há nos corações cuiabanos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Musicista, escritora, historiadora e poetista: De Maria Benedita Deschamps Rodrigues para a eterna Dunga

Da Redação - Marianna Marimon

Suas mãos corriam apressadas pelo piano, mas com leveza e sensibilidade transmitiam o som que tocava dentro do seu coração. Todo o dia pela manhã, abria a janela para deixar o sol entrar e pedia mais um dia, porque sua vontade de viver era tamanha que não cabia só em Cuiabá. Em um baú guardava as recordações da infância, quando sonhava com o mundo que queria conquistar, e com uma imaginação em polvorosa estava sempre a trocar de nome. Chegou a se chamar Simiramis,Amarilis, Adeuzinda, até que então, ao ouvir uma história do tio José Rodrigues sobre um moço feio e todo torto, chamado Dunga, se divertiu tanto que só queria ser chamada assim. De Maria Benedita Deschamps Rodrigues para a eterna Dunga Rodrigues, pianista, escritora, poetisa e historiadora.

Dunga nasceu em 15 de julho de 1908 e faleceu em 6 de janeiro de 2002, no Dia de Reis. Quando criança, era muito espevitada e fugia sempre da casa da mãe para abrigar-se na avó, e se colocava na janela a pedir para qualquer adulto que passasse que a levasse. Nestas fugas, Dunga contou com a ajuda de Dom Aquino Côrrea, que naquela época ia até a Igreja do São Gonçalo a pé e dava a mão para a jovem menina e a auxiliava em sua empreitada. A musicista contava que tinha que dar pequenos trotes para acompanhar o passo largo dos padres.

A terceira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Matogrossense de Letras começou a estudar piano aos cinco anos de idade e ia até os domingos na escola de tanto que gostava de tocar. E sobre a literatura, dizia não se recordar muito bem porque começou a escrever. Não sabia se era pelo cérebro que havia absorvido muitas histórias ou se pelo estômago, é que quando estava no colégio Dunga começou a trocar composições com outros alunos por bolinhos de ‘queimada de rapadura’.

Mas, a relação com as letras também começou cedo, assim como a dedicação pela música. Dunga ia para a livraria de Chiquinho Côrrea e devorava livros de história e história moderna, ainda mais com a ‘graça’ que o pai fez ao dar crédito para que ela pudesse adquirir tais obras. Era a primeira filha de Firmo José Rodrigues e Maria Rita Deschamps Rodrigues.

Era considerada polêmica, afinal, nunca chegou a se casar e era totalmente independente. Quando tomou um copo de cerveja pela primeira vez no Clube Feminino, lembrava que todos os olhares se voltaram para ela, que calmamente virou a sua bebida e pronto, ficou por isso mesmo.

Sua paixão não era apenas tocar, mas também ensinar, tendo sido professora durante muitos anos. A relação com o piano ficou mais estreita ainda por morar no Bairro do Porto e tocar me todos os bailes, e considerava que talvez por isso, não tenha se casado, afinal, enquanto todos namoravam ela estava entretida com o instrumento musical.

“A música está em toda a parte, no canto dos pássaros, na natureza, e até no barulho dos automóveis. Acho que é uma graça que Deus criou para gente”, narrou em um curto documentário sobre a sua vida, que está disposto na íntegra ao fim da matéria.

Entre suas publicações literárias constam: Reminiscências de Cuiabá, Roteiro Musical da Cuiabania, Marphysa: Romance de Costumes, Os Vizinhos, Cuiabá: Roteiro das Lendas, Cuiabá ao Longo de Cem Anos, Lendas de Mato Grosso, entre outros. Sobre estas lendas, causos e acasos diz que colecionou das estórias que escutou de Maria Euzébia.

Uma mulher sobretudo moderna, sem deixar o lado tradicional de uma cidade patriarcal como Cuiabá. Dunga Rodrigues era muito viajada, relembra a escritora e bibliófila Yasmin Nadaf, enquanto as mulheres ainda não saíam da capital do Estado, a musicista já tinha perambulado pelo Rio de Janeiro, que era seu destino certo e também pela Europa. “Ela viajou o mundo todo”, contou Yasmin.

Um dos momentos que retratam esta fusão de tempos e quebra de paradigmas, foi quando Dunga Rodrigues tocou em 1995, na posse de Yasmin como membro da Academia Matogrossense de Letras, ao lado de Abel Santos. Era a primeira vez que na história da Academia, o piano e a viola de cocho se encontravam para brindar com todos os que estiveram ali, um retrato do regional misturado com o clássico. Um momento que define um pouco do que foi Dunga Rodrigues.
Era considerada sempre uma mulher alegre e simples. Sua vontade de viver era maior do que a própria vida e filosofava sobre o tempo que tinha, as memórias saudosas da infância, a vida rica em poesia, literatura e música. “A vida é isso o que vivemos agora”, sentenciava. “É falar, conversar, caminhar em paz consigo mesmo e depois com os outros”, opinou.

“A juventude, eu finjo que conservo, é tão gostoso que não dá vontade de abrir mão. Cada um tem um caminho para a velhice, mas você quer se agarrar na juventude”, observou. Sobre o século XXI, sabia que devia aproveitar todos os momentos, pois, o caminho era inevitável, apesar de assegurar que quanto mais demorasse seria melhor. Ao definir a si mesma, a artista disse: “Dunga Rodrigues é metida a sabe de tudo, mas não sabe nada. Gosta dos seres humanos, dos pássaros, da natureza e da vida”.

A vontade que dá é voltar no tempo para poder ouvi-la tocar o piano, e dedilhar pelas teclas com a força de toda a sua vida, para traduzir um pouco de tudo o que possuía em seu coração. Todos a classificam em unanimidade como simples, com um bom humor inconfundível e parece que escuto a sua risada, pois, sabia que seria hoje, amanhã e para toda a vida, a Dunga Rodrigues, pianista e desbravadora de histórias e palavras, que chocou a sociedade cuiabana e se perpetuou eternamente como uma das mulheres responsáveis pela vida cultural efervescente, com seus saraus e recitais, atividades pelo Grêmio Julia Lopes e contribuições para a conservação e construção da história de Mato Grosso.

Todo o dia pela manhã, abria a janela e pedia um novo dia, porque viver para ela, nunca foi demais.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Justiça divina

Hélio Schwartsman 

SÃO PAULO - Fez muito bem a presidente Dilma Rousseff em sancionar sem vetos a lei nº 12.845, apesar dos apelos das bancadas religiosas para suprimir o dispositivo que obriga hospitais ligados ao SUS a oferecer a vítimas de violência sexual a tal da "profilaxia da gravidez".

Na papelada do Ministério da Saúde, a expressão designa apenas a chamada "contracepção de emergência", que é feita com a pílula do dia seguinte --basicamente uma dose alta de hormônios, que não é considerada abortiva. Os religiosos, porém, receiam que o termo possa estimular a interrupção voluntária da gravidez, que veem como pecado.

É um caso escrachado de falsa polêmica, pela simples razão de que mulheres estupradas que engravidem já têm direito de abortar legalmente, se assim desejarem. E essa não é nenhuma invencionice recente de esquerdistas contrários à família, mas uma regra que consta do ordenamento jurídico brasileiro desde 1940. Se há um escândalo aqui, é que, apesar de a norma estar em vigor há décadas e assegurar um direito líquido e certo, muitas mulheres, por causa da resistência velada de instituições e médicos, não tenham acesso ao procedimento, tornando necessárias peças como a 12.845.

Se as igrejas realmente creem que o aborto não deve ser autorizado nem nas condições previstas em lei, deveriam vir a público e propor claramente que ele seja proibido mesmo em caso de estupro e de risco de vida para a mãe. Aproveitando o ensejo, os católicos deveriam pedir também que pílulas anticoncepcionais e camisinhas sejam banidas do país.

Outra alternativa é que as igrejas se mirem no que o papa Francisco disse dos homossexuais --"Quem sou eu para julgar os gays?"-- e deixem pecados e pecadores sob a jurisdição de Deus. Se existe de fato um ser onisciente, onipotente e que tem horror ao aborto, ele decerto não precisa da ajuda de meros mortais para exercer a justiça cósmica.

helio@uol.com.br

Preso ao celular



Dentre as muitas e conhecidas falhas do sistema prisional brasileiro, uma das mais gritantes é a facilidade com que detentos organizam suas atividades criminosas enquanto permanecem encarcerados --graças, sobretudo, ao uso de telefones celulares.

Esses aparelhos foram decisivos para que uma facção criminosa promovesse, em 2006, uma série de rebeliões simultâneas em diversas penitenciárias de São Paulo, além de ataques nas ruas.

Soluções para mitigar o problema logo surgiram: tornar falta grave, definida em lei, a posse de celulares por detentos; ampliar a fiscalização nas cadeias; instalar bloqueadores de sinal nas prisões.

Como de hábito no país, a resposta legislativa foi rápida --e, infelizmente, a única. Menos de um ano depois, o Congresso aprovou norma que incorporou o uso, a posse ou o fornecimento de aparelho telefônico ao rol de infrações no cumprimento das penas.

No que tange a ações práticas, porém, a situação continua a mesma. Reportagem desta Folha mostrou que, de 2008 para 2012, cresceu quase 27% o número de apreensões de celulares nos estabelecimentos prisionais paulistas. Foram tomados dos presos 13.248 aparelhos no ano passado --média superior a 36 por dia.

Em termos proporcionais, o aumento acompanha o crescimento de 26,5% da população carcerária de São Paulo, que passou de 154.696 detentos no fim de 2008 para 195.695 no fim de 2012.

Ou seja, apesar do endurecimento penal, as autoridades não conseguiram combater a ilegalidade.

A vigilância decerto é dificultada pela superlotação das cadeias --em São Paulo, há quase dois presos para cada vaga no sistema penitenciário. Em condições normais, esse fato deveria servir como argumento para a construção de novas unidades e para cobrar do Estado maior rigor na fiscalização.

Não se pode ignorar, contudo, que os próprios agentes penitenciários muitas vezes atuam como facilitadores da entrada de equipamentos de toda sorte. Lidar com essa rede exige maior inteligência.

É incompreensível, assim, que o governo de São Paulo ainda não disponha de bloqueadores de celulares em seus presídios. Apenas neste mês, quase sete anos após os primeiros testes, deve ser feita uma licitação para contratar empresas com essa finalidade. Enquanto isso, a população continua com sua segurança ameaçada.