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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Artigo de Jô Furlan: Quais são as novas fronteiras da educação?

25/08/2013
Jô Furlan,

Essa pergunta tem habitado a cabeça de professores, educadores e gestores na área de educação em especial nas últimas duas décadas. Isso se deve principalmente ao avanço das tecnologias e o surgimento de um novo arsenal de ferramentas que podem ser usadas nessa área. Esse mesmo evento tecnológico permitiu aos cientistas a realização de um verdadeiro salto quântico no que diz respeito ao estudo do cérebro. 

Já possuíamos um grande conhecimento anatômico (a estrutura) e muita coisa sobre a sua fisiologia (funcionamento), mas as descobertas em especial dos últimos 15 anos, permitiram um conhecimento profundo da funcionalidade desse órgão tão fundamental. Vamos recordar que por milhares de anos pensava-se que o órgão mais importante do corpo humano fosse o coração. Daí vem o nome do latim “core” que significa centro ou núcleo. E saiba que ainda hoje muitas pessoas têm dúvida sobre isso. 

Esclarecendo de uma vez: a morte cerebral é pré-requisito para doação de órgãos, mesmo com o coração batendo, mantendo a “vida” naquele corpo, não existe mais um ser pensante por isso a chamamos de vida vegetativa. Como médico, acompanhei muitas vezes o dilema das famílias em que um de seus entes queridos estava nessa situação e percebia quanto era difícil fazer cumprir muitas vezes a vontade daquela pessoa doadora. É relativamente comum a família não autorizar a doação apesar da decisão já ter sido tomada em vida pelo paciente. 

Mas a verdade é que sem um cérebro operante aquela pessoa não existe. É apenas um corpo sem personalidade, ou lembranças. Pode parecer cruel essa declaração, mas reforça a importância de lembrarmos que somos na verdade treinadores e educadores de mentes. 

Sendo assim, quero ressaltar a importância de cada dia mais obtermos mais conhecimento sobre o cérebro humano.  A contribuição da neurociência dá uma nova luz sobre a forma como entendemos a educação, a aprendizagem e o aluno. A educação, que era antes muito baseada em experiência e filosofia, passa a ter um suporte cientifico transformando em verdades cientificas alguns preceitos existentes e derrubando outros tantos.  

Usar as neurociências para transformar a educação passa a ser um dos grandes objetivos dessa nova área chamada neuroeducação.  Um maior conhecimento sobre a mente humana vai permitir a você explorar novas fronteiras, estabelecendo um novo patamar para o desenvolvimento de novas abordagens pedagógicas.  

O fascínio em estimular, treinar,desafiar  e instigar pessoas independente das sua idade torna-se ainda mais forte quando aprendemos a usar melhor esse fantástico e extraordinário órgão chamado cérebro humano!

Dr. Jô Furlan é médico, professor e pesquisador na área de Neurociência do Comportamento, autor da Teoria da Liderança Comportamental, primeiro Treinador Comportamental do Brasil, conferencista internacional, especialista em Desenvolvimento Comportamental Humano, foi professor convidado do Curso de Especialização em Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) por oito anos e um dos precursores do conceito na América do Sul. Autor de diversos livros, áudio-livros e DVDs, criou as Pílulas de Motivação, que já alcançaram a marca de 70 mil unidades distribuídas. Para conhecer mais, acesse: www.drjofurlan.com.br. O palestrante é presença confirmada no Congresso Internacional de Educação do Norte Nordeste, em Belém

Artigo de Eugênio Sales Queiroz: As Ações Inteligentes do Professor Moderno

25/08/2013
Eugênio Sales Queiroz,

“Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino” - Paulo Freire

Na velocidade do mundo moderno aprender a usar a inteligência de forma mais prática e objetiva é de real importância para todo educador que deseja avançar cada dia mais na sua profissão (missão). 

E algumas atitudes podem ser tomadas no dia a dia profissional para que suas aulas possam ter um sentido mais abrangente, ou seja, o professor que pensa apenas em passar conteúdo sem brilho, sem entusiasmo, sabe que não conseguirá despertar em seus alunos o gosto pelo saber.

Portanto, cabe ao educador descobrir novos métodos de ensino, buscando sempre desenvolver novas habilidades para enriquecer sua presença em sala de aula.

Relaciono a seguir algumas ações inteligentes que você educador pode realizar para dinamizar suas aulas, fazendo com que seus alunos redescobriam o verdadeiro sentido do eterno aprender:

- A Ação Inteligente de redescobrir o gosto pelo ensinar: nesta ação convido você educador a fazer uma breve análise o quanto você tem avançado nos seus métodos de ensino, pois sabemos que o aluno moderno é mais curioso e uma aula monótona não consegue despertar a atenção devida, se nesta autoanálise você sentir a necessidade de fazer mudanças à hora é essa.

- A Ação Inteligente de dinamizar as aulas: talvez você consiga chamar muito mais atenção do seu aluno dinamizando suas aulas do que dando verdadeiros “discursos” ultrapassados que não fará nenhum sentido para seus alunos. Dinamizar é fazer diferente, é colocar um brilho a mais nos olhos de todos em sala de aula.

- A Ação Inteligente de trabalhar sua própria autoestima: me encanta ver educadores que estão em sala de aula por longos anos e que continuam amando a sua profissão-missão, e ao conversar com esses verdadeiros mestres descubro que os mesmos sabem trabalhar bem sua própria autoestima. E você educador-moderno tem sabido trabalhar sua própria autoestima?

- A Ação Inteligente de trabalhar a autoestima dos seus alunos, se eu lhe perguntar quais foram seus melhores professores na certa você incluirá aqueles que souberam como ninguém trabalhar sua autoestima, ou seja, souberam valorizar a presença do aluno, souberam amar seus alunos sem receio. E você educador-moderno tem sabido trabalhar a autoestima dos seus queridos alunos?

- A Ação Inteligente de saber usar Inteligência Emocional para ensinar, saber usar essa inteligência para conquistar não só a atenção do aluno bem como o seu coração é de suma importância para que a afetividade seja uma constante na relação professor-aluno, pois quem usa suas emoções com inteligência acerta bem mais do que as pessoas que não as usam.

- A Ação Inteligente do Marketing Pessoal, se apresentar bem para dar uma aula é algo imprescindível, pois diante dos alunos o educador será sempre espelho, portanto se vestir bem, falar de forma coloquial e ser amável contam ponto para você que deseja ser reconhecido pelos que estão sempre a sua volta.

- A Ação Inteligente de ser um educador inesquecível, tenho convicção que o maior prêmio que um professor pode receber na vida é tornar-se inesquecível para todo aquele que teve a oportunidade de participar de suas aulas. Ser um educador inesquecível é saber fazer sempre mais e melhor o seu trabalho, mesmo quando não recebe uma recompensa financeiro por isso, é despertar no aluno gosto do aprender, é fazer mais em menos tempo e mais bonito. E você educador o que tem feito para tornar-se inesquecível?

- A Ação Inteligente da quebra de paradigmas, os acomodados de plantão sempre gostam de ficar na sua zona de conforto e por essa razão não avançam e para muitos deles o mundo não tem mais jeito, já os educadores de coração sabem como ninguém quebrar paradigmas, ou seja, sabem inovar, sabem e gostam de aprender coisas novas todos os dias. E você professor, o que tem feito para ser um constante desbravador de outros mares? 

Muitas outras ações poderiam citar neste breve ensaio, mas considero essas as principais para quem deseja melhorar cada dia mais sua performance em sala de aula.

Sempre é bom lembrar que ousadia tem poder, portanto, amigo educador ouse cada dia mais a ser o melhor que conseguir ser.

Eugênio Sales Queiroz é consultor, palestrante e autor de vários livros lançados no Brasil e exterior. www.eugeniosales.com.br. O palestrante é presença confirmada no IV Congresso Sergipano de Educação.

Artigo de Marcia Honora: A Inclusão na Berlinda - “As Limitações do Professor e da Escola para lidar com esta Realidade”

28/08/2013
Márcia Honora,

Antes de nos debruçarmos sobre a discussão da inclusão na berlinda, vamos nos deter ao que significa na prática este conceito de berlinda:

1. Berlinda é um pequeno coche de quatro rodas suspenso por dois varais;

2. Berlinda é um jogo infantil, onde todos fazem uma roda e uma pessoa é escolhida para ser o centro das atenções e todos opinam sobre ela, escrevendo em um papel, sem assinatura, e colocando-se este papel em uma urna, e a pessoa fica assim, sabendo o que pensam sobre ela;

3. Berlinda é estar em foco, ser o foco das atenções, de forma negativa. Quando todos prestam atenção em alguém e a pessoa é foco de críticas.

Portanto, estar na berlinda é estar em foco, ser o foco das atenções, de forma negativa. Quando todos prestam atenção em alguém e a pessoa é foco de críticas.

Neste caso: a inclusão é o foco das atenções na escola, de forma negativa. 

Para mim, existem alguns equívocos nesta afirmação: inclusão não pode ser vista como algo negativo dentro de uma escola, casa ou nação; inclusão é colocar a pessoa com deficiência em seu lugar de direito. Ou não? Alguém discorda?

Inclusão é trazer para perto a diversidade de olhar, de aprender com o diferente, de crescer no aspecto humano e solidário. Os alunos sem deficiência são presenteados com muitos ganhos que a convivência com pessoas com deficiência lhes proporciona nas escolas inclusivas: alunos sem deficiência mais preparados para o contato com a diversidade, se tornam mais solidários no contato com a dificuldade do próximo, se tornam mais generosos com os colegas, se tornam menos egoístas e temos esperanças que podem se tornam adultos melhores do que nós!

Márcia Honora, fonoaudióloga, mestre em Educação, professora universitária, consultora de inclusão para prefeituras e escolas particulares, escritora de 86 livros sobre educação inclusiva e diversidade. Márcia é palestrante confirmada para o Congresso Internacional de Educação do Norte e Nordeste, realizado em Belém, de 19 a 21 de setembro.

Facebook: Márcia Honora
Site: www.marciahonora.com.br
E-mail: contato@marciahonora.com.br

Artigo de Lucia Couto: Educação Integral como caminho para uma melhor qualidade do ensino público

28/08/2013
Lucia Couto

Uma nova agenda para a educação está sendo construída nos últimos anos no Brasil. A busca pela qualidade do ensino e da aprendizagem na escola pública brasileira tem passado pela perspectiva de assegurar às crianças e jovens o direito de estar e conviver por mais tempo na escola e, com isso, ampliar, ainda mais, suas oportunidades de aprendizagem. 
Estados e municípios têm investido em seus sistemas de ensino e criado condições favoráveis a uma ampla diversificação de atividades, visando ampliar o repertório a partir dos eixos da cultura, do esporte, da arte, ciência e tecnologia. Há uma forte movimentação em tornar realidade o conceito e a prática de educação integral em tempo integral.

A organização desse amplo repertório passa obrigatoriamente por uma nova abordagem curricular, capaz de relacionar maiores oportunidades de aprendizagem com maior proteção social e garantia de direitos. É a percepção de que a integralidade da educação se constrói através de múltiplas linguagens e em diversos espaços e circunstâncias.

Desde a aprovação, em 1996, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) N.º 9394, que prevê aos sistemas de ensino o aumento, progressivo, do tempo de permanência dos alunos para até 7 horas diárias, muitos dos esforços da última década se voltaram para esse objetivo. Nesse sentido, cabe destacar que uma política efetiva de educação integral se traduz, não apenas em ampliação da jornada escolar, mas pressupõe uma mudança de paradigma na concepção e no tipo de formação para esse novo sujeito histórico. Isso significa romper com o modelo corrente e historicamente conhecido de atividades complementares à escola ou à prática do turno e contraturno, e, sobretudo, possibilitar uma maior integração curricular envolvendo todo o universo de aprendizagens e saberes desse aluno e considerando as vivências e conhecimentos próprios da comunidade local. 

Portanto, nessa perspectiva, garantir mais tempo e mais possibilidades de aprendizagem requer uma intensa mobilização dos atores que estruturam o cotidiano escolar para a reorganização dos espaços e tempos das aprendizagens. A comunidade e seus espaços ingressam nessa dinâmica de produção para, juntos, constituírem os campos formativos desse novo currículo.  É a concretização da máxima de que, mais tempo na escola com mais oportunidades de aprendizagem é igual a maiores possibilidades de sucesso escolar. 

Lucia Couto, palestrante do Congresso Internacional de Educação do Norte e Nordeste, realizado em Belém (PA), de 19 a 21 de setembro. Lucia irá abordar o tema "Escola de Tempo Integral: pode ser esse o futuro da educação brasileira para a melhoria de ensino?".

Cipriano Luckesi escreve sobre os cuidados relativos à Avaliação de Aprendizagem


Cipriano Luckesi,

O especialista em Educação, Cipriano Luckesi, é presença confirmada para o próximo congresso promovido pela Futuro Eventos: Congresso Internacional de Educação do Norte e Nordeste, realizado em Belém, de 19 a 21 de setembro. Luckesi irá abordar o tema “Avaliação: até quando ela será um grande desafio para alunos, pais, professores e instituição?”.


O palestrante escreveu para o site da Futuro sobre alguns cuidados com relação à Avaliação de Aprendizagem. Confira!

01. Para atuar em avaliação da aprendizagem, são necessários cuidados com o estado emocional do avaliador, à media que atua no contexto das relações interpessoais e com os seus recursos metodológicos;

02. Do ponto de vista emocional, a heteroavaliação - como prática escolar - se dá no seio de múltiplas expressões emocionais, seja por parte do educador ou por parte do educando. E, como os processos emocionais podem ser serenos, mas também intempestivos, o avaliador da aprendizagem necessita estar atento, permanentemente, aos seus movimentos emocionais, como também dos seus educandos, à medida que facilmente eles intervêm na prática avaliativa da aprendizagem, lugar onde tradicionalmente se faz presente posições exacerbadas de autoridade;

03. Metodologicamente importa, em primeiro lugar, apropriar-se efetivamente do que significa avaliação, que é um ato de investigar a qualidade de alguma coisa, no caso, a qualidade da aprendizagem dos educandos na prática pedagógica escolar. Avaliar não tem a ver com examinar, que é recurso necessário seletivo nos concursos, nos quais o candidato está em busca de uma vaga. Avaliar a aprendizagem tem a ver com a sala de aula e, então, o estudante já tem a vaga, ele só necessita de aprender;

04. A seguir, compreender que não existe “avaliação tradicional”. Existe, de um lado, exames escolares, sistematizados no século XVI e vigentes até o presente momento. E avalição da aprendizagem, cuja compreensão e formulação se dá na primeira metade do século XX, mas que, ainda, não conseguiu fazer vigência efetiva no sistema educacional como um todo, seja no Brasil ou fora dele;

05. Compreender a avaliação como investigação da qualidade da realidade, o que exige, como sua base “material”, uma descritiva da realidade sobre a qual se dá o processo avaliativo, o que, por sua vez, no caso da aprendizagem, exige instrumentos de coleta de dados sobre o desempenho do educando. E estes nem são tradicionais, nem novos, nem velhos, simplesmente devem ser os necessários, ou seja, aqueles que são capazes de captar a realidade em investigação avaliativa. Se são necessários testes para convidar o educando a manifestar sua aprendizagem, utilizam-se testes. Mas, se o desejo é que o educando manifeste que aprendeu a redigir textos, em língua nacional ou estrangeira, a única forma de detectar suas habilidades aprendidas será uma redação. Ou, se o desejo é saber se o educando aprendeu a nadar no “modelo crawl”, só será possível conhecer o seu desempenho, se “nadar”, seja numa piscina ou em outro ambiente que permita essa performance;

06. Os instrumentos de coleta de dados necessitam, metodologicamente, estar a serviço do Projeto Pedagógico da Escola que, por sua vez, se traduz em currículo escolar e, subsequentemente, em plano de ensino. Como o ato de avaliar é subsidiário do projeto de ação, os instrumentos de coleta de dados também o são. Se não ocorrer dessa forma, coletarão dados inadequados, trazendo enganos para o educador, para o educando e sua família, para o sistema de ensino, para a sociedade em geral;

07. Somente com um estado emocional sereno e com o uso de significativos e adequados instrumentos de coleta de dados, poder-se-á praticar a avaliação da aprendizagem, seja no presente ou no futuro. Dessa forma, a avaliação será a aliada do educador individual e do sistema de ensino na perspectiva do sucesso.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"Consolidando conquistas e construindo o futuro da educação no Brasil"

Artigo do palestrante Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli (Revista eletrônica ComCiencia.br)

A população e professores desprovidos de informações costumam atacar a educação no Brasil como se ela fosse de péssima de qualidade.

Infelizmente, alguns setores da imprensa, em particular, jornalistas nem sempre habilitados, analisam e desqualificam os complexos processos educacionais sem conhecê-los de fato. Andam sempre à cata de “maçãs podres”, que utilizam para alimentar a audiência de programas sensacionalistas de rádio e TV ou para vender seus jornais impressos, ignorando experiências e situações escolares razoáveis e outras tantas de ótima qualidade.

O que não se dão conta é que a educação no Brasil mudou, e para melhor, com conquistas memoráveis nas últimas décadas. O Plano Nacional de Educação (PNE) pode ser o orientador do caminho para esse salto fundamental na educação, correspondendo ao crescimento econômico com distribuição de renda e justiça social que o país tanto buscou e está começando a conquistar.

O PNE está em discussão no Congresso Nacional. O projeto foi elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) a partir dos debates e das deliberações da Conferência Nacional de Educação (Conae), maior evento educacional já realizado no país. A Câmara dos Deputados já realizou dezenas de audiências públicas com diversos segmentos da sociedade civil para debatê-lo. Os deputados apresentaram quase três mil emendas ao PNE, um recorde para um projeto de lei. Essa mobilização em torno de um projeto de lei mostra a sua importância: o Brasil precisa muito de um bom sistema de educação e tem a oportunidade certa no momento correto para consegui-la.

Como, porém, as políticas públicas, em particular na educação, padecem de alguns tipos de males, como o eleitoralismo (ações governamentais focadas em necessidades eleitorais dos gestores) e o egopoliticismo (que associa as ações governamentais à figura eleitoral do gestor), e considerando as situações caóticas da educação brasileira que no século passado levaram os movimentos sociais a levantar amplas reivindicações aos governantes, as proposições parecem sempre irrealizáveis e os avanços são recebidos como minúsculas conquistas. Isso porque em educação não existem soluções rápidas, ainda mais em um país continental e complexo como o nosso; por isso, toda mudança educacional precisa de tempo para a efetivação, assim como para mostrar os seus frutos.

Um dos caminhos para superar essa situação é a elaboração de um PNE com validade superior ao mandato de dois governos, fundamentado em demandas da sociedade e que alcance amplo apoio do Congresso Nacional. A implantação do PNE, por sua vez, precisa ser monitorada pela sociedade civil.
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O Brasil não vai conseguir superar o descaso de cinco séculos com a educaçao num piscar de olhos. Mas como afirmamos, a situação da educação mudou para melhor e alguns fatos significativos do início da segunda década do século XXI, precisam de reconhecimento:

1. A ampliação do atendimento escolar é um marco histórico na nossa história: (a) universalizou o ensino fundamental; (b) está organizando uma ousada política de expansão da educação infantil; (c) constituiu uma sólida política de educação profissional tecnológica no ensino médio, com a implantação dos Institutos Federais; (d) expandiu – sem precedentes – a oferta da educação superior (com a ampliação das universidades federais e a compra de vagas em instituições privadas, com o ProUni); e (e) estão em consolidação os modelos escolares autônomos para as populações indígenas, quilombolas e do campo (castanheiros, seringueiros, assentados, ribeirinhos...). As salas de aula estão superlotadas, diversas escolas convivem com péssimas condições materiais e os resultados da aprendizagem ainda são baixos. Experiências já reconhecidas em municípios de todos os portes e regiões mostram que esses problemas podem e estão sendo superados.

2. O financiamento da educação consolidou as fontes de recursos para a área e o sistema compensatório de distribuição de verbas entre as diferentes regiões do país pelo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que distribui quase R$ 10 bilhões por ano do governo federal para equiparar as condições escolares entre as regiões mais pobres do país. Assim, todas as escolas públicas têm garantido uma quantidade mínima de recursos para cada aluno. As diferenças entre os diversos municípios ainda são grandes, mas é inegável que é uma questão de tempo para que todos os estudantes do Brasil tenham a mesma qualidade de educação em todo o país.

3. A valorização dos educadores está ocorrendo com a implantação do piso salarial nacional dos educadores (que paga, em valores de hoje, mais de R$ 1.100 pela jornada de 40 horas), com a formação inicial desses profissionais em cursos de graduação e a expansão da oferta de pós-graduação para eles. Vencida a batalha pelo piso salarial, falta estabelecer planos de carreira com aumento real de salários e melhorar os cursos de graduação e pós-graduação para professores, integrando-os num amplo sistema de formação continuada.

4. A situação da educação foi revelada, em parte, pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), um importante instrumento quantitativo, reconhecido internacionalmente. Mas precisamos dos fatores qualitativos e processuais para aprimorar o sistema de avaliação institucional da educação.

5. A gestão democrática está se generalizando com a implantação de conselhos escolares, conselhos municipais e com a consulta na escolha de gestores. Mas ainda temos dificuldades com a participação das comunidades, em particular, dos familiares de alunos.

6. O Brasil caminha com passos largos no combate ao racismo e na afirmação da diversidade cultural de nossa população nas escolas. A adoção de cotas na educação superior está possibilitando a formação de professores negros e índios em maior número. A cultura e a história indígena e africana estão ganhando espaços reconhecíveis nas salas de aula.

7. A inclusão de pessoas com necessidades escolares diferenciadas na educação regular é uma grande conquista que está derrotando o preconceito. No entanto, ainda são deficitárias as ações educacionais suplementares e complementares, bem como a formação e o apoio aos professores da educação regular.

8. O governo federal mantém políticas nacionais consolidadas nas áreas de alimentação, transporte, material didático, entre outras, para apoiar as redes municipais e estaduais.

O PNE, na forma como foi apresentado ao Congresso Nacional, apresenta condições objetivas para superar a fragmentação das políticas públicas e garantir o funcionamento de um sistema de educação eficiente e de qualidade. Algumas de suas principais metas são:

I. A universalização da educação básica – o que significa: (a) manter mais de 42 milhões de alunos de 4 a 17 anos, sendo 5,6 milhões na educação infantil de 4 a 5 anos (aumento de 1,4 milhão) e mais de 11 milhões de jovens no ensino médio; (b) atender metade das crianças de 0 a 3 anos na educação infantil, um contingente de 4,8 milhões de crianças; (c) aumentar, na educação superior, de pouco mais de 6 milhões para 11,5 milhões de estudantes, ou seja, um crescimento de 5,3 milhões de matrículas; formar na pós-graduação 60 mil mestres e 25 mil doutores por ano.

II. A oferta de educação integral para 25% dos estudantes de 4 a 17 anos (esta meta pode ser ultrapassada com apoio de programas municipais e estaduais e com a possibilidade de expansão do ensino médio profissionalizante).

III. A formação inicial dos professores da educação básica será em cursos de graduação (hoje apenas 67,5% estão nesta condição) e 50% deles com pós-graduação (hoje 25% têm pós-graduação).

IV. O reconhecimento profissional e social dos professores, promovido pelo aumento da média salarial equivalente aos profissionais com o mesmo número de anos de escolarização. Isso significa um salto de mais de mil reais no salário médio, saindo dos atuais R$ 1.745,00 para 40 horas para chegar a R$ 2.792,00. Ou seja, a educação pública vai poder disputar os melhores profissionais do mercado em iguais condições com a rede particular e outros setores. Os professores também deverão ter planos de carreira fixados em até dois anos após a aprovação do PNE.

V. O ensino médio deverá atender a todos que o quiserem cursar. O ensino profissionalizante deverá ser ofertado com mais de dois milhões de vagas, sendo metade em Institutos Federais de alta qualidade. É bem possível que os governos estaduais também ofertem mais vagas de ensino médio profissionalizante. Assim, poderemos ter mais de um estudante, a cada quatro, em escolas com alta qualidade.

VI. O analfabetismo será combatido com eficácia no Brasil. Os alfabetizados e os analfabetos funcionais terão a possibilidade de continuar os estudos. E a educação de jovens e adultos (EJA) terá metade das vagas com formação profissionalizante, aumentando as atuais 22 mil para cerca de 850 mil vagas, um incremento de quase quarenta vezes. A população de 18 a 24 anos terá sua escolaridade ampliada para o equivalente a 12 anos de estudos, terminando, nessa faixa etária, com a diferença de negros e índios em relação ao restante da população.

VII. Os recursos saltarão dos atuais 5% do Produtor Interno Bruto (PIB) para cerca de 7% (algumas previsões apontam que os valores podem ser aplicados até 2016 e chegar entre 8 e 9% até 2020). A qualificação da gestão democrática irá reduzir a malversação de dinheiro público e melhorar o uso dos recursos da educação.

Essas mudanças, entre outras, irão estabelecer condições de melhora também das condições sociais, pois a escolarização das pessoas entre 17 e 24 anos (ou 29, como já é sugerido no Congresso), a formação de jovens no ensino médio profissionalizante e a expansão da educação superior, associadas ao modelo de crescimento econômico com distribuição de renda, ampliarão o desenvolvimento da economia, gerando renda e tributos, impulsionando um processo endógeno: a educação faz o país crescer, o que, por sua vez, melhora ainda mais a educação.

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O PNE já é uma grande conquista, pois expressa o crescimento e as potencialidades da educação brasileira. No entanto, ela possui outras “urgências” que vão além do projeto. Algumas podem ser incorporadas pelo Congresso Nacional ou então pelos governos dos municípios, estados e do Distrito Federal, ou ainda impulsionadas pelos movimentos de professores e por ações da sociedade. Entre elas, seriam destacáveis as seguintes:

1. Estabelecer currículos e ações pedagógicas para uma educação para todos. As ações educativas ainda estão focadas em aprendizagens individuais, desconsiderando as complexas redes culturais. Precisamos superar a cultura da nota e da presença fundada em pedagogias meritocráticas e alçar os estudantes à condição de protagonistas de seus processos de aprendizagem. As referências para essa proposta pedagógica seriam as da Escola Cidadã de Porto Alegre, Sem Fronteira de Blumenau e Plural de Belo Horizonte.

2. Efetivar políticas efetivas de proteção da diversidade cultural, social, de gêneros, de orientação sexual e de necessidades diversificadas. Ainda são insuficientes as políticas de ações complementares e suplementares de atendimento especializado dos alunos com necessidades educativas diversificadas. O ensino médio regular, atualmente desprovido de identidade, precisa ser convertido em educação para a juventude.

3. Implantar o sistema de avaliação processual e qualitativa das escolas e da aprendizagem na educação básica, similar em diversos aspectos ao Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes).
4. Ofertar condições de fruição da cultura na escola e em equipamentos culturais, estimulando o aprimoramento estético e as condições para a conquista e o exercício da cidadania cultural.

5. Estimular e efetivar a participação democrática, em particular, em relação às famílias, e o funcionamento regular na gestão democrática das instituições escolares.

6. Implementar o sistema de formação continuada dos educadores, articulando a educação superior, a formação inicial e a realidade das redes educacionais. A formação inicial em cursos de pedagogia e licenciaturas ainda é frágil e a pós-graduação ainda é acessível na forma de ensino a distância (EaD).

7. Aprimorar a EJA como um sistema para incorporar com qualidade os analfabetos funcionais e os estudantes com necessidades especiais que desejam continuar estudando a partir dos 17 anos.

8. Promover uma reforma tributária que garanta mecanismos eficientes e permanentes de financiamento da educação.

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Temos uma educação com conquistas colossais, um potencial imenso e dificuldades notáveis num momento muito favorável de desenvolvimento social, cultural e econômico do país. O PNE pode ser o grande contrato social a reunir os governos de todas as instâncias, os educadores, os funcionários, as famílias, os alunos e a sociedade para fazer da educação – de fato – prioridade e realidade nacional. O passo de gigantes do começo do século XXI deve ser acompanhado de ações de grande porte nesta década, para que ao final dos anos 2020 o Brasil possa ter estabelecido a educação necessária ao povo brasileiro.

Assim, precisamos escrever este PNE pensando em construir as condições para o próximo: todos os estudantes em escola integral equipada com aprendizagem, esporte, cultura e lazer; universidade produzindo conhecimento e formando profissionais socialmente qualificados; professores com ótima escolarização e com salários que reconheçam a sua função social. E um país que encontrou o caminho do desenvolvimento econômico com distribuição de renda e justiça social.

Marcos Cordiolli é mestre em educação, cineasta e consultor técnico ad hoc da relatoria do Plano Nacional de Educação na Câmara dos Deputados.

Artigo do palestrante Marcos Cordiolli
Marcos Cordiolli (Revista eletrônica ComCiencia.br)